Em uma subestação digital, o arquivo SCD não é um anexo do projeto nem uma formalidade de fim de engenharia. É a descrição formal de como deve ser construído o modelo de informação da instalação: quais dispositivos compõem o projeto, quais dados eles trocam, quais conjuntos de dados estão definidos, como estão configurados os relatórios MMS, as mensagens GOOSE e os fluxos de Sampled Values. É pelo SCD que projetista, comissionador e cliente devem ter o mesmo entendimento de como funciona a troca de informação na subestação.

Na prática, porém, surge uma pergunta inevitável: a configuração real dos dispositivos realmente corresponde ao arquivo SCD que foi entregue ao cliente?

Foi exatamente com essa situação que os engenheiros da Tekvel se depararam durante o comissionamento de uma subestação digital — e é esse caso prático que está na base deste artigo.

A situação inicial

No objeto, executavam-se trabalhos de integração de dispositivos no sistema de controle. Era preciso organizar a aquisição de telemedidas e telesinalização por IEC 61850, usando MMS.

A primeira etapa dos trabalhos na subestação já havia sido executada anteriormente por outros contratantes. Os dispositivos de proteção e SCADA já haviam sido configurados, parte da infraestrutura digital já estava em operação, e o sistema de telecontrole estava sendo implantado mais tarde — no escopo dos nossos próprios trabalhos.

Para a integração, recebemos um arquivo SCD que deveria conter a descrição atualizada da configuração da subestação digital.

Já nas primeiras conexões a alguns dispositivos, porém, ficou claro que a configuração real diferia da que estava descrita no SCD.

E isso levou imediatamente a uma pergunta prática: como verificar de forma rápida e confiável a correspondência entre a configuração de todos os dispositivos e o arquivo SCD entregue?

Por que a verificação manual não funciona

A forma mais óbvia de verificação é conectar-se a cada dispositivo com uma ferramenta conhecida — por exemplo, OMICRON IEDScout ou outro visualizador do modelo do dispositivo via MMS.

Essa abordagem realmente permite ver a configuração real do IED: dispositivos lógicos, nós lógicos, conjuntos de dados, blocos de controle de relatórios e outros elementos do modelo IEC 61850.

Mas a abordagem manual tem várias limitações importantes.

Em primeiro lugar, cada dispositivo precisa ser verificado separadamente.

Em segundo lugar, os dados lidos do dispositivo precisam ser comparados manualmente com o que está descrito no SCD.

Em terceiro lugar, quando há muitos dispositivos — e ainda mais conjuntos de dados e relatórios — esse tipo de verificação rapidamente se transforma em uma tarefa trabalhosa e de baixa escalabilidade.

Especialmente quando não basta saber se a configuração coincide ou não, mas é preciso obter um resultado demonstrável: quais elementos coincidem, quais diferem, onde está faltando um conjunto de dados, onde sua composição foi alterada, onde um Report Control Block, um GOOSE Control Block ou um fluxo de Sampled Values está configurado de outra forma, e assim por diante.

Em outras palavras, em uma instalação real é preciso não uma verificação manual pontual, mas uma reconciliação automatizada da configuração do projeto descrita no SCD com a configuração real dos dispositivos.

Observação importante: e se houvesse um sistema de monitoramento online IEC 61850 instalado no objeto

Vale destacar que essa tarefa de verificação da correspondência entre o SCD e a configuração real dos dispositivos é exatamente o tipo de função que um sistema de monitoramento de subestação digital tem por objetivo cumprir.

Se no objeto estivesse instalado um sistema de monitoramento online IEC 61850, o controle de conformidade entre a configuração dos dispositivos e o SCD atual seria executado automaticamente, no âmbito do monitoramento contínuo da infraestrutura digital. Esse sistema se conectaria de forma centralizada aos dispositivos, controlaria sua configuração, detectaria alterações e produziria relatórios de divergências sem necessidade de uma visita dedicada a cada dispositivo.

No caso em questão, porém, a subestação já estava em operação e nenhum sistema de monitoramento online IEC 61850 havia sido instalado. Era necessária outra abordagem — uma ferramenta que pudesse ser aplicada diretamente durante o comissionamento, para uma verificação de engenharia pontual mas completa.

E foi exatamente para essa tarefa que se utilizou o Tekvel Magic.

A solução: o módulo de verificação do Tekvel Magic

Para resolver a tarefa, foi utilizado o Tekvel Magic — uma multiferramenta para trabalhar com subestações digitais e comunicações IEC 61850.

O software inclui um módulo de verificação da correspondência entre um arquivo SCD e a configuração real dos dispositivos.

A lógica de funcionamento é a seguinte:

  1. O arquivo SCD é carregado no Tekvel Magic.
  2. Dele é extraída automaticamente a configuração de cada IED: - endereçamento IP; - composição dos DataSets; - configuração de MMS Report; - configuração de GOOSE; - configuração de Sampled Values; - vínculos entre blocos de controle e conjuntos de dados; - composição dos conjuntos de dados ao nível de objetos e atributos.
  3. Em seguida, o software se conecta sequencialmente a cada dispositivo via MMS e lê seu modelo IEC 61850 real.
  4. A configuração extraída do SCD é então comparada automaticamente com a configuração real do dispositivo.
  5. Como resultado, é produzido um relatório de divergências.

O algoritmo completo fica mais claro como diagrama de blocos — do carregamento do SCD à elaboração do relatório final de testes:

flowchart TB
    A["Carregamento do arquivo SCD/SCL"]
    B["Extração da lista de IEDs<br/><i>Nomes e endereços IP<br/>da seção Communication</i>"]
    C["Seleção dos dispositivos a verificar"]

    A --> B --> C --> D

    subgraph LOOP["Para cada IED selecionado"]
        direction TB
        D["Conexão via MMS"]

        REF[("Referência (SCD)<br/><i>Parsing do XML</i>")]
        FACT[("Real (IED)<br/><i>Leitura do modelo via MMS</i>")]

        D --> REF
        D --> FACT

        DS["<b>Verificação DataSet</b> (§ 6.2)<br/>• Presença dos conjuntos<br/>• Composição FCDA<br/>• Ordem dos elementos"]
        GS["<b>Verificação GOOSE</b> (§ 6.3)<br/>• Presença de GoCB<br/>• goID, datSet, confRev<br/>• MAC, APPID, VLAN"]
        SV["<b>Verificação SV</b> (§ 6.4)<br/>• Presença de MSVCB<br/>• smvID, datSet, confRev<br/>• smpRate, nofASDU<br/>• MAC, APPID"]
        RCB["<b>Verificação RCB</b> (§ 6.5)<br/>• Presença BRCB / URCB<br/>• Número de instâncias<br/>• rptID, datSet, confRev, intgPd<br/>• TrgOps, OptFlds"]

        REF --> DS
        REF --> GS
        REF --> SV
        REF --> RCB
        FACT --> DS
        FACT --> GS
        FACT --> SV
        FACT --> RCB

        DS --> V
        GS --> V
        SV --> V
        RCB --> V

        V["<b>Veredito por parâmetro</b><br/>✅ correspondente / ⚠️ aviso / ❌ desvio"]
        V --> DISC["Desconexão MMS"]
    end

    DISC -. "próximo IED" .-> D
    DISC ==> RPT["<b>Geração do relatório</b>"]
    RPT --> CNT["<b>Conteúdo do relatório</b><br/>• Lista dos dispositivos e status de conexão<br/>• Resumo dos resultados por IED<br/>• Detalhe DataSet, GOOSE, SV, RCB<br/>• Conclusão geral: APROVADO / REPROVADO"]

    style A fill:#F3F3F3,stroke:#888
    style B fill:#F3F3F3,stroke:#888
    style C fill:#EDE7F6,stroke:#7E57C2,color:#311B92
    style D fill:#E0F2F1,stroke:#26A69A,color:#004D40
    style REF fill:#FAFAFA,stroke:#AAA
    style FACT fill:#FAFAFA,stroke:#AAA
    style DS fill:#E3F2FD,stroke:#42A5F5,color:#0D47A1
    style GS fill:#E3F2FD,stroke:#42A5F5,color:#0D47A1
    style SV fill:#E3F2FD,stroke:#42A5F5,color:#0D47A1
    style RCB fill:#E3F2FD,stroke:#42A5F5,color:#0D47A1
    style V fill:#FBE9E7,stroke:#E64A19,color:#BF360C
    style DISC fill:#E0F2F1,stroke:#26A69A,color:#004D40
    style RPT fill:#EDE7F6,stroke:#7E57C2,color:#311B92
    style CNT fill:#FAFAFA,stroke:#AAA
Fig. 1. Algoritmo de verificação automatizada da conformidade da configuração do IED com o arquivo SCD.

O que pode ser detectado

Essa abordagem permite identificar com rapidez divergências que, em uma verificação manual, são fáceis de passar despercebidas ou de interpretar de forma equivocada.

Uma comparação pode revelar, por exemplo, que:

  • a composição de um conjunto de dados no dispositivo difere do que está descrito no SCD;
  • conjuntos de dados previstos no projeto estão ausentes no dispositivo;
  • o dispositivo contém conjuntos de dados adicionais que não estão no arquivo SCD entregue;
  • parâmetros do MMS Report diferem dos valores de projeto;
  • um bloco de controle de relatórios aponta para outro conjunto de dados;
  • parâmetros de relatórios MMS foram modificados;
  • a configuração GOOSE não corresponde ao SCD;
  • parâmetros de transmissão de Sampled Values diferem dos valores de projeto;
  • parte dos sinais necessários para SCADA, telecontrole ou despacho está ausente da configuração real do dispositivo.

É especialmente importante que a verificação mostre não apenas o fato da divergência, mas o seu lugar específico na configuração: qual bloco foi alterado, quais parâmetros diferem, quais dados estão ausentes.

Como resultado, o comissionador obtém um protocolo concreto de divergências, que pode ser usado para os próximos passos.

Resultados em um objeto real

Neste projeto, o Tekvel Magic comparou automaticamente a configuração de 76 dispositivos com o arquivo SCD.

Os resultados mostraram que o SCD entregue não correspondia integralmente à configuração real dos dispositivos no objeto.

Resultados da verificação:

Dos 76 dispositivos verificados:

  • 62 dispositivos correspondiam ao SCD;
  • 14 dispositivos apresentavam divergências.

Estatísticas:

  • total de verificações executadas — 410;
  • aprovadas — 396;
  • desvios identificados — 14;
  • avisos — 0.

Os desvios identificados estavam relacionados a:

  • ausência de sinais nos conjuntos de dados utilizados por relatórios MMS;
  • divergências entre parâmetros de configuração de relatórios MMS.

Status final da verificação: não aprovada.

Relatório do Tekvel Magic — seção com informações sobre o dispositivo verificado
Fig. 2. Relatório do Tekvel Magic — a seção com informações sobre um dispositivo verificado.

A verificação completa do objeto — conexão aos dispositivos, leitura dos modelos MMS, comparação automática com o SCD e geração do relatório — levou cerca de 15 minutos e exigiu do comissionador apenas duas ações: carregar o arquivo SCD e iniciar a verificação.

Utilidade prática no comissionamento

Para o comissionador, esse tipo de ferramenta é especialmente útil em situações nas quais o objeto está sendo transferido de um contratante para outro, ou quando o sistema de controle, telecontrole ou SCADA-EMS está sendo conectado a dispositivos já configurados.

Em situações desse tipo, o arquivo SCD é frequentemente assumido como "atualizado por padrão", embora a configuração real dos dispositivos possa ter sido alterada ao longo do projeto. Verificar isso manualmente é demorado e inconveniente: é necessário conectar-se a cada IED, procurar os DataSets, relatórios, blocos GOOSE e SV corretos e, depois, comparar tudo com a descrição do projeto.

Em vez de abrir manualmente cada dispositivo, procurar os blocos de controle e compará-los com o SCD, o engenheiro recebe um relatório automático.

Isso permite responder rapidamente às perguntas-chave:

  • O SCD entregue pode ser utilizado como fonte de dados atualizada?
  • Quais dispositivos diferem efetivamente da descrição do projeto?
  • Quais diferenças são críticas para a integração no sistema de controle?
  • É necessário corrigir o SCD, a configuração dos dispositivos ou as configurações do sistema de nível superior?

Na prática, isso reduz substancialmente o tempo de busca pelas causas dos problemas de integração e diminui o volume de trabalho de engenharia "manual" no objeto.

Além disso, esse relatório se torna uma base técnica conveniente para a interação entre todos os participantes do projeto — cliente, projetista, contratante anterior e fabricante do equipamento.

Utilidade para o cliente e para a operação

Essa funcionalidade é importante não apenas para o comissionamento. Ela também é útil para os especialistas de proteção, SCADA e despacho do lado do cliente.

A situação típica é a seguinte: o contratante conclui os trabalhos, entrega o conjunto de documentação e o arquivo SCD, declarando que ele corresponde à configuração real da subestação.

Mas como verificar rapidamente que isso é, de fato, verdade?

É possível conectar-se a alguns dispositivos e olhar manualmente a configuração — mas isso só dá uma visão fragmentária. Ou é possível usar o módulo de verificação do Tekvel Magic e comparar automaticamente o SCD com a configuração real dos dispositivos.

Um especialista de SCADA ou de despacho, por exemplo, pode verificar rapidamente como os relatórios MMS estão configurados nos próprios dispositivos e se eles correspondem ao que está descrito no SCD entregue.

Isso é especialmente importante porque é justamente por MMS que normalmente se realiza a aquisição de telesinalização, telemedidas e demais informações para sistemas de controle, telecontrole e despacho.

Se os relatórios em um dispositivo não estiverem configurados como o SCD indica, isso pode levar a problemas de integração, aquisição incorreta de dados ou a uma busca demorada pela causa, já durante a fase de comissionamento.

Por que isso é importante para uma subestação digital

Em sistemas convencionais, muitas inconsistências podiam ser detectadas a partir de diagramas de fiação, réguas de bornes e circuitos físicos.

Em uma subestação digital, uma parcela significativa das ligações e configurações existe apenas como configuração IEC 61850.

Se o arquivo não corresponde à configuração real dos dispositivos, a operação e a modernização da instalação tornam-se extremamente problemáticas. Surgem riscos e problemas na conexão de novos sistemas, em alterações de configuração, na análise de eventos de falha, na verificação de mensagens GOOSE, fluxos Sampled Values e relatórios MMS, e durante a manutenção técnica.

Por isso, a relevância do arquivo SCD se torna crítica — ela influencia diretamente a operabilidade e a sustentabilidade do objeto. Afinal, se a subestação não tem um SCD atualizado, não há um entendimento confiável de como a subestação digital realmente funciona.

É por isso que a verificação da conformidade do SCD com a configuração real dos dispositivos deve ser entendida não como um controle adicional, mas como um procedimento de engenharia obrigatório em uma subestação digital.

Tekvel Magic como ferramenta de verificação — resultados

Neste caso, o Tekvel Magic permitiu automatizar uma tarefa que, em uma verificação manual, exigiria significativos esforços e horas-engenheiro de comissionamento.

A lógica de trabalho mantém-se simples e clara:

  1. Carregamos o arquivo SCD disponível.
  2. Extraímos automaticamente dele a configuração de dispositivos, DataSets e blocos de controle.
  3. Conectamo-nos aos dispositivos reais via MMS.
  4. Lemos a configuração real.
  5. Comparamos a descrição do projeto com o estado real.
  6. Obtemos um relatório de divergências.

Rápido, conveniente e demonstrável.

Conclusão

Este caso ilustra bem a diferença entre o monitoramento contínuo e a verificação instrumental.

Se a subestação digital tem um sistema de monitoramento online IEC 61850 instalado, esse tipo de tarefa pode ser resolvido automaticamente, no âmbito do controle contínuo do estado da infraestrutura digital.

Se o objeto já está em operação e nenhum sistema de monitoramento online IEC 61850 está instalado, o Tekvel Magic permite executar essa verificação como um procedimento de engenharia independente: conectar-se aos dispositivos, ler a configuração real, compará-la com o SCD e obter um relatório de divergências.

Para o comissionador, é uma forma rápida de entender o estado real do objeto.

Para o cliente — uma maneira de verificar se o SCD entregue corresponde realmente ao que está configurado nos dispositivos.

E para a operação de uma subestação digital — uma ferramenta que ajuda a trabalhar com base em evidências técnicas.

Magia de verdade — só que totalmente de engenharia.


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